Eu sempre fui quieto, desde criança. Minha mãe dizia que eu era ensimesmado. Sempre fui de observar muito, o que toma a maior parte do meu tempo, porque, enquanto observo, eu vou refletindo e refletindo. E então tudo isso sai pela minha escrita, na maioria das vezes, ou pelas coceiras na minha pele. É lá que somatizo.

 

Eu era bastante tímido, até a adolescência, mas eu cresci e aprendi a me expor com menos receio. Eu tinha muito medo do julgamento alheio, talvez porque eu me via um pouco diferente dos outros. Eu não jogava futebol, eu não jogava nada, eu gostava de ler, de brincar sozinho, muitas vezes. Eu criava filmes com meus bonecos de plásticos e com as vassouras do quintal de meus pais. Eu parecia não me encaixar em muita coisa que as outras crianças faziam.

 

Eu me interessava por filmes antigos, eu grudava na minha mãe, enquanto a ouvia contar de enredos, narrativas, histórias de sua infância. Meu pai sempre falava que eu era muito saudosista, preso ao passado. Eu adoro o passado, o meu e o dos outros, porque eu reinvento histórias e me reinvento a partir de experiências que não são minhas também. Adorava ir com a minha mãe ao cemitério, olhava as fotos, as datas e imaginava sobre a vida e a morte daquelas pessoas. Pensa se eu não era meio diferente.

 

 

Por conta disso é que eu aprendi a ser reservado. Quando o que a gente tem a oferecer não é muito igual ao que esperam de nós, a gente acaba sendo julgado e criticado. Muitos fazem mau uso do que temos e nos devolvem de uma forma dolorida e cruel. O meu amor pela docência acabou me forçando a trabalhar essa minha timidez. Acho que procurei ser professor exatamente porque seria um desafio a ser vencido. Sempre gostei de desafios, principalmente os silenciosos, em que enfrentamos a nós mesmos.

 

Por tanto ter me decepcionado com algumas pessoas, que tentaram transformar minhas qualidades em defeitos, eu ainda não costumo me abrir com qualquer um. As pessoas próximas são escolhidas a dedo. Eu não posso me permitir ser motivo de chacota por quem finge amizade. Isso ninguém merece. Enfim, não é que eu seja tímido, eu apenas me preservo de muitas pessoas que jamais fizeram questão de ganhar a minha confiança. E nunca a terão, por sinal.

 

Imagem: Zoltan Tasi

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