Em tempos de violência, brigas virtuais e presenciais, noticiários desanimadores e futuro incerto, a saudade brota de e em mim, como que uma estratégia de sobrevivência. Todos os dias, tenho saudade.

Saudade de lá atrás, nas primeiras recordações que guardo, do lustre de pano da Disney que pairava sobre meu berço. Do colo de minha mãe, seu cheiro, seu mingau. Da imagem daquele homem grande e imenso, meu pai. Meus brinquedos, as narrativas que eu inventava enquanto imaginava os filmes cujo protagonista era meu Falcon, salvando o mundo de qualquer perigo.

Saudade do quintal imenso, onde eu vivia minha infância, em meio a mato, cachorros, passarinhos e frutas na árvore. Ali eu andava de tico-tico, brincava de bola, criava um mundo só meu, que me protegia do medo que eu tinha de tudo. Do meu melhor amigo, de nossas aventuras pelo mercadão municipal e pelas ruas, então tranquilas, mesmo à noite. Mesmo sozinhos.

Saudade da estação de trem e seus barulhos, e sua gente apressada, enquanto esperávamos para viajarmos para São Carlos, onde minha vó nos aguardava. Saudade de casa de vó, comida de vó, cheiro de vó. Do quarto de minha tia Cida, um mundo à parte, cheio de fantasias, penduricalhos, perucas e discos. Do frango à passarinho que minha vó fazia pra mim. Do ovinho de páscoa que ela sempre trazia pra mim.

Saudade dos momentos em que eu e meus irmãos nos reuníamos e cantávamos, enquanto minha irmã tocava violão, um repertório que se repetia e nunca enjoava. Andanças era o início. Saudade de quando nós, os irmãos, sentávamos na sala, junto com meus pais, antes de dormirmos, para relembrar fatos de nosso passado. Quantas lembranças, quantas risadas, quanta ternura.

Saudade de meu primeiro dia de aula, de minha mãe ali na porta da classe esperando minha calma, enquanto eu ensaiava o mundo longe dela. Saudade do be-a-bá, das tabuadas, dos textos da cartilha. Saudade dos amigos que ficaram lá atrás, dos que dali iriam continuar, dos que já se foram, saudade do pão de queijo da cantina, do pão com sardinha da merenda. Do hino, das festas juninas, do cheiro de caderno novo.

Saudade dos bailinhos, dos aniversários, dos verões na piscina do clube. Dos bailes, dos carnavais e suas marchinhas. Saudade da adolescência, daquela impressão de que o mundo é nosso, de que podemos tudo, de que nada poderá nos atingir. Da necessidade de aceitação, dos medos, dos confrontos, de quem nunca gostou de mim naquela época e hoje bebe comigo na roda de amigos.

Saudade da primeira vez que vi o mar, que me apaixonei, que consegui ler, que ganhei um livro, que tirei A, que tirei 10, que andei de bicicleta, de carroça, de ônibus, de avião. Da primeira vez que li Márquez, Lispector, Neruda, Turma da Mônica. Que ouvi Bach, Beatles, Gal. Saudade da Vila Sésamo, da Princesa Safiri, dos Trapalhões, do Jerry Lewis, da Sala Especial e seus filmes de pornochanchada cortados como num açougue.

Saudade de minha namorada me pedindo pra tocar Brasileirinho no órgão eletrônico e da minha mãe me ouvindo dedilhar suas melodias preferidas ao piano. Saudade do buraco onde seria instalada a piscina, que guardaria reuniões familiares inesquecíveis, da churrasqueira queimando brasa, dos cachorros e da gata Kate, que tanto amor me deram. Saudade das cólicas de meu filho, adentrando madrugadas insones; do cheiro de bebê

Sei que o passado é lugar de referência e não de residência, mas, ultimamente, costumo morar por lá demoradamente, onde me sinto mais seguro do que neste hoje incerto e caótico. Também sei que sobreviverei, enquanto houver vida, enquanto a esperança resistir dentro de mim. Mesmo assim, tudo o que carrego é tão forte e especial, que é impossível não reviver o que me fez, o que me tornou o que sou, o que tenho, o que sonho.

Sempre assim, a memória afetiva do que foi mágico nos salva. Nesses tempos loucos, há lembranças que curam e nos reacendem a esperança de que nada foi em vão. Nem mesmo as tempestades…

Imagem: Joshua Earle



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