Eu fui uma criança muito medrosa, tinha medo de tudo. Talvez, por ter um melhor amigo, um irmão e um pai bastante corajosos, eu achasse que então estaria ali protegido e, com isso, nem procurava enfrentar os meus fantasminhas de infância. Além disso, minha mãe tinha o colo mais acalentador do mundo e corria me proteger ali, sempre que o medo vinha.

Se aparecesse uma cena mais forte na televisão, minha mãe já sabia que eu teria que dormir na sua cama, obrigando meu pai a se deslocar até a minha. Eles até tinham um teatrinho para o dia seguinte: meu pai falava que estava com dor nas costas e minha mãe dizia que minha cama fazia aquilo com ele. Tudo na esperança de que eu não voltasse a chamá-la, com medo, à noite. Mas eu chamaria, dormindo com minha mãe em várias noites de minha infância.

Lembro-me que, durante um bom tempo, ela se deitava comigo, na minha cama, e orávamos juntos, esperando que eu adormecesse. E fui, assim, aprendendo que a oração é poderosa, pois nos coloca mais próximos de uma proteção que não enxergamos, mas que sentimos. A fé de minha mãe eu aprendi e até hoje, quando a escuridão teima em ficar por perto, eu oro e confio, o que me traz um conforto bom e esperançoso.

Creio, por isso, que a gente já nasce com nosso mundinho aqui dentro, porque, desde que me lembre, sempre fui quieto, observador, inseguro, cheio de medos. Sempre pensei muito, sobre tudo, o que me leva, muitas vezes, a também sentir as coisas exageradamente. Leitura e telas de tv e de cinema sempre fizeram o meu mundo mais feliz, ao mesmo tempo em que me enchia de ideias, de visões, de experiências.

Tudo o que entra tem que sair de alguma forma e, por essa razão, tenho a necessidade de escrever. Acredito que as pessoas devam encontrar alguma forma de colocar para fora o que acumula dentro de si, para não sobrecarregar demais as suas almas, os seus corações. Sejam atividades físicas, esportes, sejam textos, como no meu caso, temos de encontrar um meio que nos ajude a digerir tudo o que sentimos lá fora, ou nosso interior implode e desaba.

Superei muitos medos, quando comecei a ter um olhar mais maduro sobre a vida. Descobri, assim, que a gente precisa enxergar os problemas de cima para baixo, como adultos que somos, porque, caso mantenhamos um olhar infantil, vendo os problemas de baixo para cima, eles se tornarão cada vez mais fortes e poderosos. Não podemos dar esse poder a eles, de jeito nenhum. Não é fácil, porque requer uma coragem absurda enfrentar a vida de frente.

E, hoje, em tempos de internet, a maldade parece estar mais explícita, tendo seu poder de alcance ampliado à máxima potência. As redes virtuais são como inquisições, que julgam e condenam as pessoas, sem dó, sem o direito à defesa, sem empatia alguma. Tenho medo da maldade das pessoas, porque podem destruir vidas, famílias, reputações, muitas vezes por pura inveja. Por isso oro, como minha mãe fazia.

E, como a gratidão é uma forma de nos proteger também, até elaborei uma prece que me ajuda muito, nos seguintes termos: “Obrigado, Senhor, por todas as bênçãos que me concede diariamente, muitas das quais nem percebo. Por eu poder me arrepender dos erros e pedir perdão, entendendo que somos todos imperfeitos e vivemos em constante aprendizado. Pelas provações, que me fortalecem e moldam o meu caráter. Que o mal não atinja a minha família e a família de todos que lerem esta prece. Assim seja!”

E não tem outro jeito de sobreviver, que não mantendo a esperança dentro de nós. Acreditar, sempre, que ainda há muita coisa boa e muita gente especial nos aguardando. Esperança no amanhã, na existência de muitas pessoas boas, que, aos poucos, conscientizarão a humanidade da necessidade de se colocar no lugar do outro, para que não se julgue tanto, não se condene tanto, não se fofoque tanto. E lembre-se: nada poderá ser tão implacável conosco quanto a nossa própria consciência. Portanto, como tão bem nos ensinam as sagradas escrituras, oremos e vigiemos.



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