Minha mãe era muito católica. Ia à missa, guardava os dias santos, foi catequista, ia a procissões, rezava o terço. Ela não citava versículos e profetas, mas amava Jesus e tinha uma fé absurda nem Nossa Senhora. Hoje, eu percebo que o importante, para minha mãe, era Jesus, a mãe de Jesus, os evangelhos.

Sempre que chegava a Páscoa, eu assistia aos filmes sobre a vida de Cristo, ao lado dela, enquanto ela me explicava o que ia acontecendo na telinha – o filme de que ela mais gostava, sobre Jesus, era “A maior história de todos os tempos”. Entrava ano, saía ano, lá íamos nós assistir ao filme. Curiosamente, naquela versão, Judas não se enforcava, mas se jogava em um poço em chamas. Minha mãe me explicava que a cena simbolizava o remorso do discípulo traidor.

Um dos maiores ensinamentos que minha mãe me deixou foi a oração. Todas as noites, quando eu era pequenininho, ela se deitava comigo e, antes de eu dormir, orávamos o Pai Nosso e a Ave Maria. Lembro-me que eu entendia, na passagem da oração de Maria, “agora É a hora de nossa morte”, e aquilo me assustava. Mas minha mãe querida estava ali comigo e nada poderia me atingir. E eu dormia.

Os ritos católicos, muitos dos quais hoje se perderam, fizeram parte de minha infância. Durante a quaresma, minha mãe não deixava que a gente cantasse música de carnaval. Eu e meu amigo Rogério íamos guardar o corpo de Cristo, na Sexta-feira Santa, em várias igrejas da cidade. Lembro-me das ruas enfeitadas no Domingo de Ramos. Esses momentos foram muito importantes para mim, pois ali eu aprendi sobre respeito, sobre silenciar quando é necessário, sobre fé.

Depois do Natal, creio que a data católica mais importante era a Páscoa. Na minha infância, até o clima mudava na Sexta-feira Santa: ventava, o tempo fechava, como se o luto por Jesus se anunciasse na natureza. No domingo, eu acordava, olhava embaixo da cama e lá estava meu ovo de Páscoa Lacta n° 17. Não havia muitas marcas nem variedades, era chocolate tradicional ou chocolate branco e só. Minha mãe deixava claro que, naquele dia, Jesus ressuscitava. Minha mãe viva o evangelho de verdade.

Hoje, consigo olhar toda aquela religiosidade que fez parte de minha infância e perceber a importância daquilo tudo. Por mais materialista que o mundo seja, não vejo possibilidade de alguém passar pelas dificuldades e tragédias que vêm de repente, sem que possua alguma fé dentro de si. Sem que vislumbre uma força que ninguém vê, mas que sustenta os corações aflitos. Não sei nem como eu sobreviveria sem minha fé em Deus, sem minha oração a Nossa Senhora Desatadora dos Nós.

Para mim, a Páscoa é simbolicamente especial e única, pois ela carrega, em si, tudo o que move as esperanças dos seres humanos. Páscoa simboliza o renascimento, a certeza da vida eterna. Renascemos, todos os dias, sobrevivendo às dores, às tristezas. E assim também ocorre com nossos sonhos, nossas esperanças. E é assim que a gente continua, em busca da felicidade, vivendo com fé e verdade.

Cristo é esperança, amor, renovação e conforto para a nossa espera em rever nossos queridos que já se foram. Fé é amor. Sem fé, nada faz sentido nessa vida.

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