Às vezes me pego pensando na minha infância e me espanto com a durabilidade daqueles momentos. Tudo bem que as memórias são carregadas de subjetividade, mas cada instante parecia durar tanto. Eu acordava, assistia à Vila Sésamo, à Paula Saldanha no programa Globinho, fazia a lição de casa, brincava com meu cachorrinho Pimpolho. Quanta coisa numa manhã.

 

Almoçava e ia para a escola. Não havia tantas aulas como hoje, mas, mesmo assim, eram horas e horas ali na carteira de duplas, em meio a cartilhas, estojos de madeira, carimbos da professora e tabuadas intermináveis. A gente tinha mais férias, menos dias letivos, o que era o suficiente para aprendermos. Passávamos menos tempo na escola e menos dias também. E bastava.

 

À noite, depois do banho, a televisão não servia para as crianças e a gente se reunia na rua, para andar de bicicleta nos jardins do Grupo Brasil, pois lá não tinha aulas à noite, ou para brincar no estacionamento do Mercado Municipal. Pasmem, as crianças ficavam nas ruas à noite sem perigo, sem muitos carros passando. Alguns vizinhos ficavam nas janelas ou sentados em suas cadeiras em frente ao portão. Sem medo. Pasmem de novo.

 

A semana passava devagarinho. Sábados e domingos ficavam bem longe. Mas a questão é que nem precisava esperar o fim de semana com tanta ansiedade, porque os adultos descansavam nos dias de semana. Os adultos que eu conhecia trabalhavam somente durante o dia e, à noite, ficavam em casa. Meu pai, por exemplo, costumava ir, à noite, à pracinha das Palmeiras, para conversar com sua turma de passarinheiros. Levava eu e meu irmão algumas vezes. As noites, para muitos trabalhadores, eram livres.

 

 

Hoje, parece que está todo mundo com pressa, sem tempo, sem paciência, sem agenda livre, correndo feito doido. Quando eu ando de uber, eu observo os transeuntes e os motoristas à minha volta e todos, sem exceção, aparentam estar apressados, de olho no relógio, semblantes preocupados. Que difícil ver alguma leveza nas pessoas pelo trânsito, nas calçadas, escritórios, repartições públicas. A gente até se espanta quando esbarra com alguém que sorri com verdade.

 

Que saudade de não ter pressa. Que saudade dos dias sem correria, do quintal sem fronteiras de meus pais, do recreio de lancheira, dos desenhos, gibis, das tardes intermináveis das férias escolares. Que saudade de ficar vendo minha mãe cozinhar, do meu pai fazendo palavra cruzada no quarto, das festas de aniversário regadas a pão com patê e caçulinha. Que saudade dos meus irmãos reunidos e cantando ao som de um violão.

 

Eu quero voltar a respirar sem pressa, a dormir sem preocupação, a pensar no que eu vou ser quando crescer. Saudade de olhar para o nada e imaginar um monte de coisas sem sentido. Meu Deus, como o tempo passa. Que eu guarde as memórias mais ternas dentro de mim, para que elas sempre me salvem da vida, quando ela doer fundo. E que eu esteja nas memórias acalentadoras daqueles que amo. Porque é assim que a gente se eterniza.

 

Imagem: Myles Tan

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